Linha fina: O CEO Qichao Hu reconhece a crise no setor e redireciona a empresa para uma plataforma de inteligência artificial que já identificou seis materiais promissores.
A indústria de baterias vive um momento de transformação dura. Fabricantes ocidentais enfrentam fechamentos e dificuldades para competir em escala. Diante disso, a SES AI, startup sediada em Massachusetts, decidiu mudar radicalmente o rumo.
Em vez de insistir na fabricação em grande volume para veículos elétricos, a empresa agora prioriza o uso de IA para acelerar a descoberta de materiais avançados. Essa virada reflete desafios reais do mercado e busca criar valor de forma mais rápida e sustentável.
Qichao Hu, fundador e CEO da SES AI, não esconde a gravidade da situação. Ele afirma que quase toda empresa ocidental de baterias ou já morreu ou caminha para isso. A realidade obriga uma adaptação urgente.
O que levou a SES AI a mudar de estratégia
A jornada da empresa começou no MIT, onde Hu desenvolveu pesquisas sobre baterias resistentes a altas temperaturas para exploração de petróleo e gás. A solução inicial envolvia tecnologia de lítio metálico com eletrólito de polímero sólido, que prometia maior densidade de energia em comparação com as baterias de íons de lítio convencionais, que usam ânodo de grafite e eletrólito líquido.
A startup, inicialmente chamada Solid Energy, surgiu em 2012. Depois de perceber que o mercado de sensores subterrâneos era limitado, a equipe pivotou para veículos elétricos, que ganhavam tração na época. Eles ajustaram a química para funcionar em temperaturas mais baixas e construíram instalações-piloto em Massachusetts e Xangai.
Em 2021, o otimismo era alto. A SES AI firmou colaborações com gigantes como GM, Hyundai e Honda. O foco estava em baterias mais leves e eficientes para SUVs e caminhões, que exigem autonomia sem peso excessivo. Em 2022, a empresa anunciou uma versão com ânodo de silício, mais fácil de fabricar em escala.
No entanto, o cenário mudou. O crescimento dos veículos elétricos nos Estados Unidos desacelerou, influenciado por cortes em incentivos governamentais. Com o mercado de carros grandes em dificuldade, a SES AI precisou repensar tudo.
Hoje, a produção se limita a nichos menores, como drones. A grande aposta é a plataforma Molecular Universe, que usa inteligência artificial para identificar novos materiais para baterias.
Como a IA entra na descoberta de materiais para baterias
A Molecular Universe não é apenas um software genérico. Ela se baseia no conhecimento acumulado pela SES AI ao longo de mais de uma década de testes reais de baterias. A empresa combina dados proprietários com modelos de IA para explorar combinações moleculares de forma muito mais rápida do que métodos tradicionais.
Até o momento, a plataforma identificou seis novos materiais para eletrólitos. Um deles atua como aditivo para ânodos de silício, um componente promissor, mas problemático.
Ânodos de silício incham durante o ciclo de carga e descarga, o que causa danos e reduz a eficiência. A indústria costuma usar fluoroetileno carbonato (FEC) para formar uma película protetora. Porém, esse aditivo pode se degradar em altas temperaturas e gerar gases que prejudicam a vida útil da bateria.
O composto descoberto pela SES AI oferece desempenho similar ao FEC, mas sem a liberação de gases indesejados. Esse tipo de avanço pode melhorar a durabilidade e a segurança de baterias com silício.
A estratégia permite que a SES AI escale sem precisar investir bilhões em fábricas gigantes. Em vez de fabricar células em massa, a empresa pode licenciar materiais ou a própria plataforma para outras fabricantes. Isso gera receita mais rápida e com menor risco.
Qichao Hu destaca que o domínio técnico da equipe em baterias é mais importante que o modelo de IA em si. Os dados reais de fabricação e testes dão uma vantagem competitiva significativa.
Três razões principais para o pivô da SES AI rumo à IA
- Dificuldades na fabricação em escala: Empresas ocidentais lutam contra concorrência asiática dominante e custos elevados de produção em volume para veículos elétricos.
- Oportunidade em nichos e software: Foco em drones, sistemas de armazenamento de energia (ESS) e materiais licenciáveis permite receita mais diversificada e previsível.
- Aceleração via IA: A Molecular Universe reduz o tempo e o custo da descoberta de materiais, abrindo portas para parcerias e assinaturas recorrentes.
Desafios e ceticismo no setor de baterias
Nem todos veem o uso de IA como solução imediata. Kara Rodby, da Volta Energy Technologies, aponta que o desenvolvimento de novos materiais, embora importante, não parece ser o principal gargalo da indústria no momento. Investidores recuaram e o apoio público diminuiu em alguns mercados.
A SES AI ainda mantém operações de fabricação em nichos, como baterias para drones e mobilidade aérea urbana, com instalações na Coreia do Sul em expansão para atender padrões de segurança americanos (NDAA). A empresa também avança em sistemas de armazenamento de energia em parceria com players como UZ Energy.
Resultados recentes mostram crescimento. A SES AI reportou receita de cerca de US$ 21 milhões em 2025 e projeta entre US$ 30 milhões e US$ 35 milhões para 2026, impulsionada por múltiplas unidades de negócio: drones, ESS e materiais avançados.
A plataforma Molecular Universe já é testada por mais de 40 clientes em áreas como veículos elétricos, drones, armazenamento e eletrônicos de consumo.
O que isso significa para o futuro das baterias
Essa mudança da SES AI reflete uma tendência maior na indústria. Em vez de competir diretamente na produção em massa, empresas ocidentais buscam diferenciar-se por inovação em materiais e software.
A IA pode ajudar a explorar espaços químicos complexos que humanos levariam décadas para mapear. No entanto, transformar descobertas em produtos comerciais ainda exige testes rigorosos, validação em escala e integração com processos de fabricação existentes.
A SES AI mantém parcerias históricas com montadoras e investe em soluções práticas para aplicações reais. O sucesso dependerá da capacidade de entregar materiais que realmente melhorem densidade de energia, segurança, custo e durabilidade.
Enquanto isso, o setor acompanha de perto. Se a Molecular Universe entregar avanços consistentes, ela pode se tornar uma ferramenta valiosa para acelerar o desenvolvimento de baterias de próxima geração, beneficiando não só veículos elétricos, mas também drones, robótica e armazenamento de energia renovável.
A transição da SES AI mostra que, em um mercado volátil, flexibilidade e foco em inovação tecnológica pesam mais que insistir em modelos antigos de negócio.
Três lições que outras empresas de tecnologia podem tirar dessa virada
- Avalie o mercado com honestidade: Reconhecer limitações competitivas cedo permite pivotar antes que seja tarde demais.
- Valorize dados proprietários: O conhecimento acumulado em testes reais dá vantagem única quando combinado com IA.
- Diversifique fontes de receita: Combinar hardware nichado, licenciamento de materiais e software de assinatura reduz dependência de um único segmento.
A SES AI continua operando em um setor estratégico para a transição energética. Sua aposta na IA representa uma tentativa pragmática de sobreviver e crescer em meio a desafios geopolíticos e econômicos que afetam toda a cadeia de baterias.
O caminho à frente ainda tem incertezas, mas a direção clara para descoberta acelerada de materiais pode influenciar como o mundo desenvolve as baterias do futuro.










