Especialista com décadas de experiência no sistema Unimed revela os reais entraves que vão além da adoção de novas ferramentas e o que falta para a transformação digital entregar resultados concretos aos pacientes.
A transformação digital na saúde já deixou de ser opcional. No Brasil, ela se tornou uma necessidade urgente para melhorar o atendimento, reduzir custos operacionais e colocar o paciente no centro das decisões. Mesmo assim, o progresso avança de forma irregular, com barreiras que vão muito além da simples compra de softwares ou equipamentos modernos.
Neste contexto, a conversa com Omar Taha, curador do conselho da Faculdade Unimed e com mais de 30 anos de trajetória no sistema cooperativista de saúde, traz clareza sobre o estágio atual do setor. Ele destaca que diferentes instituições convivem com níveis muito distintos de maturidade tecnológica. Enquanto algumas unidades já experimentam inovações avançadas, outras ainda lidam com sistemas desconectados e processos manuais.
O que realmente impede o avanço da saúde digital no Brasil
A principal dificuldade não está na falta de tecnologia disponível, mas na capacidade de conectar o que já existe. A interoperabilidade surge como o maior gargalo. Em um ecossistema fragmentado, com múltiplos provedores, modelos de operação e pouca comunicação entre instituições, compartilhar informações de forma fluida continua sendo um desafio diário.
Sem integração real entre sistemas, dados importantes ficam isolados. Um exame feito em uma unidade não conversa facilmente com o prontuário de outra. Isso gera retrabalho, atrasos no diagnóstico e decisões que poderiam ser mais precisas.
Principais barreiras identificadas por especialistas:
- Fragmentação de sistemas e falta de padrões comuns de troca de dados
- Resistência cultural à mudança dentro de organizações
- Dificuldade em estruturar e governar grandes volumes de informações
- Desigualdade de maturidade entre diferentes regiões e instituições
- Pressão por resultados rápidos sem base sólida de infraestrutura
Governança de dados: o alicerce invisível da IA na saúde
Tecnologias como inteligência artificial prometem revolucionar diagnósticos, previsões de demanda e tratamentos personalizados. No entanto, seu sucesso depende diretamente da qualidade e organização dos dados.
Omar Taha enfatiza que a governança de dados não é um detalhe técnico. Ela representa o elemento central para qualquer iniciativa digital madura. Sem padronização, limpeza e integração consistente das informações, o potencial da IA se perde ou, pior, leva a conclusões equivocadas que podem afetar a segurança do paciente.
No dia a dia das instituições de saúde, isso significa investir tempo e recursos em:
- Criação de políticas claras para coleta, armazenamento e uso de dados
- Implementação de padrões como HL7 FHIR para facilitar a troca de informações
- Treinamento contínuo de equipes sobre a importância da qualidade dos registros
- Estruturas de compliance que equilibrem inovação com proteção de privacidade
- Ferramentas que permitam análise em tempo real sem comprometer a segurança
Como a tecnologia pode humanizar o cuidado
Uma preocupação recorrente envolve o medo de que máquinas substituam o contato humano. Taha rebate essa visão. Ao automatizar tarefas repetitivas e operacionais, as soluções digitais liberam tempo precioso dos profissionais para o que realmente importa: a relação com o paciente.
Imagine um médico que, em vez de gastar minutos preenchendo formulários ou buscando resultados em sistemas diferentes, recebe informações consolidadas e pode dedicar mais atenção à conversa e ao plano de tratamento individualizado. O futuro aponta para um modelo onde o paciente ganha protagonismo, com profissionais atuando como consultores especializados.
Essa mudança exige nova cultura organizacional. Lideranças precisam promover ambientes onde inovação e humanização caminhem juntas, com equipes capacitadas para usar ferramentas digitais de forma estratégica.
Movimentos recentes que indicam evolução
O sistema Unimed, por exemplo, tem avançado em reorganização interna e criação de estruturas dedicadas à inovação. O foco abrange gestão, assistência e educação, com iniciativas que buscam alinhar tecnologia às necessidades reais das cooperativas e dos pacientes.
Esses esforços incluem:
- Desenvolvimento de projetos piloto em telemedicina e monitoramento remoto
- Investimentos em plataformas integradas de gestão clínica
- Parcerias com startups e instituições de ensino para acelerar a curva de aprendizado
- Criação de comitês multidisciplinares para definir prioridades digitais
Outras instituições de grande porte no Brasil seguem caminhos semelhantes, embora em ritmos diferentes. O que unifica os casos de sucesso é a compreensão de que maturidade digital exige visão de longo prazo, não apenas implementação pontual de ferramentas.
Estratégias práticas para acelerar a maturidade digital
Para líderes do setor que buscam avançar de forma consistente, algumas ações fazem diferença imediata:
- Avalie o estágio atual com diagnósticos honestos de interoperabilidade e governança
- Defina prioridades claras alinhadas ao impacto no paciente e na eficiência operacional
- Invista em pessoas tanto quanto em tecnologia, com programas de capacitação contínuos
- Busque parcerias que tragam expertise externa sem perder o controle estratégico
- Monitore métricas reais de adoção, usabilidade e resultados clínicos
A jornada exige paciência. Instituições que constroem bases sólidas de dados e integração tendem a colher frutos mais duradouros quando escalam soluções de IA e analytics avançados.
O papel do paciente no futuro da saúde digital
O próximo passo natural envolve maior empoderamento do indivíduo. Aplicativos que permitem acesso fácil ao histórico médico, alertas personalizados de prevenção e acompanhamento contínuo fora do ambiente hospitalar representam a evolução lógica.
Quando o paciente participa ativamente do próprio cuidado, com informações transparentes e ferramentas acessíveis, os resultados melhoram em adesão a tratamentos, prevenção de complicações e satisfação geral.
Especialistas como Taha defendem que esse protagonismo não diminui a importância dos profissionais de saúde. Pelo contrário, eleva o nível da relação, transformando consultas em conversas mais profundas e orientadas por dados concretos.
A transformação digital na saúde brasileira avança, mas ainda precisa superar barreiras estruturais profundas. Interoperabilidade, governança de dados e mudança cultural seguem como os grandes pilares para que a tecnologia realmente entregue valor aos pacientes e às instituições.
Ouça o episódio completo do podcast Biotech and Health para acompanhar toda a conversa com Omar Taha.










